JESUS AOS 12 ANOS

Do livro “Myriam” de Huberto Rohden¹,
Do capítulo “Lampejos do Além”,
Versificamos a narrativa do cego Eliud
Sobre Jesus no templo de Jerusalém:

“Nesse inesquecível dia,
Myriam recebeu em seu lar
O velho Eliud e a sua netinha
Que vieram para almoçar.

Lucas também foi convidado
Para a frugal refeição
Em casa da mãe de Jesus,
Nessa referida ocasião.

O cego contava na época
Quase setenta anos de idade;
Se o Nazareno ainda vivesse,
Nesse ano 59, teria na realidade

Onze anos a menos
Do que o velho “fellah” da Judéia.
Depois do leve repasto
Eliud teve a feliz idéia

De contar para os presentes,
Entre outras histórias, também
O encontro que teve com Jesus
No templo de Jerusalém.

A cegueira do último decênio,
Naquela situação presente,
Parecia haver lhe chamado,
Das penumbras do subconsciente

Para a luz meridiana do consciente,
Ocorrências há muito distantes,
Reminiscências da sua mocidade.
E bastante nítidas e constantes,

Surgiram a sua mente
Os acontecimentos vividos
Que aos olhos do espírito
São como se ontem houvessem ocorridos.

Lembra-te, Myriam
Começou o cego ancião,
Voltando suas órbitas extintas
Exatamente na direção

Daquela distinta senhora
E erguendo bastante o rosto,
Como que à procura de luz,
Continuou com muito gosto:

Lembra-te, querida amiga,
Daquela páscoa em Jerusalém,
Quando Jesus ficou no templo
Sem que tu e José ou mais alguém

Soubésseis onde Ele estava?
Se me lembro, querido amigo…
Foram dias de indizível angústia…
Que carrego ainda comigo…

Tinha o teu Jesus uns 12 anos.
Eu estava com 23 de idade.
Rabi Gamaliel, neto do grande Hillel²,
Instruíra-me, com propriedade,

No conhecimento da lei de Moisés.
Eu era um assíduo frequentador
Do venerável templo de Iavé,
E com o sentimento de muito fervor,

Passava longas horas
Aos pés do mestre Gamaliel,
Acompanhado nessa atitude
De alguns companheiros meus,

Porque dos lábios do mestre
Fluíam torrentes de sabedoria,
Certamente de origem divina,
Que a todos profundamente envolvia.

Um dia, após as solenidades pascais,
Gamaliel e outros rabis se encontravam
Reunidos numa sala do templo,
E naquele instante reflexionavam

Sobre a Lei e os profetas.
Eu e alguns adeptos valorosos
Tínhamos a permissão para assistir
A esses senados religiosos.

De súbito, entrou no recinto
Um menino de rara beleza
E pediu licença a Gamaliel,
Causando a todos muita estranheza,

Para ouvir as dissertações
Dos mestres ali presentes.
Alguns rabis se opuseram
De maneira muito veemente

A essa pretensão descabida
Porque era contra a praxe admitir
Que crianças, de qualquer idade,
Pudessem ficar por ali

E assistir as pregações dos rabis.
Não fosse a sábia intervenção
Do querido mestre Gamaliel,
É certo que naquela situação

O menino Jesus teria
Que abandonar a sala de reunião.
Gamaliel não era só sabedoria,
Mas também tinha muita intuição.

Permitiu ao pequeno intruso
Permanecer naquele lugar
E até indicou um assento
Perto do seu para ele sentar.

Depois deste ligeiro incidente,
Prosseguiu, animada, a discussão.
Explicavam os nossos doutores
Aos que estavam naquela reunião

O livro do profeta Isaías,
Honra e glória de nossa nação.
Não concordavam as suas opiniões
Sobre um ponto em questão:

O sentido do “ebed Yahveh”³,
De que falava o grande vidente.
Diziam uns que era Israel,
Alvitravam outros, frontalmente,

De que fosse o Messias vindouro.
Ninguém parecia ter lembrança
Que naquele seleto ambiente
Se encontrava uma criança

Que seguia com vivo interesse
O percurso da dissertação.
Eu nunca vira esse menino,
E nada sabia, até então,
Sobre ele e sua família.
Mas havia em seu semblante
Algo de luminoso, de divino,
A irradiar-se de maneira constante.

Estive por longo tempo
Com os olhos fixos nesse varão
E esqueci-me por completo
Do assunto versado no salão.

A certa altura, quando a discussão
Atingira o máximo de calor,
Na qual cada um expressava
O seu próprio juízo de valor,

Entre eles acabaram se formando
Dois partidos que se digladiavam
Em verdadeiro duelo intelectual
Sobre os aspectos de que discordavam

Relativos ao controvertido texto
Do grande profeta hebreu.
Levantou-se o menino desconhecido,
E perante todos aconteceu

Que com respeito e simplicidade
Pediu permissão ao grande rabi
Para dizer algumas palavras
Às pessoas que estavam ali.

Fez-se repentino silêncio,
Todos os olhos nele se fixaram,
O menino avançou resoluto
Com passos firmes que o levaram

Para o meio daquele recinto,
Espalmou sua delicada mão
Sobre o sagrado volume
E começou a discorrer, então…

Ó Myriam! Ó Lucas! Que momento divino…
Eliud, tomado pela emoção,
Deixa que de suas órbitas extintas
Brotem as lágrimas do coração.

Comunicou-se a todos os presentes
A grande comoção do narrador.
Pois não é a palavra expressada
Que comove a alma é o amor,
Amor que é a própria alma,
E a alma de Eliud, entrementes,
Era um mundo sacudido
Por terremotos veementes…

De alma para alma
É que esse fluido invisível
Transmite-se e empolga,
E pode tornar possível

Fenômeno de arrebatamento,
Lançando a outras realidades
O espírito em total envolvimento,
Desde a mais profunda das profundidades

Até a mais excelsa das excelsitudes.
A palavra é, propriamente,
Apenas um frágil veículo
Dessa força que unicamente

Da alma humana é emanada
E que muitas vezes, certamente,
Fala mais pelo silêncio
Do que pela voz tão-somente.

Por um longo momento
Envoltos em doce vibração,
Todos ficaram em silencio,
Enleados de tanta emoção.

Por fim, prosseguiu Eliud:
Quando naquele inesquecível dia
Aquele menino abriu os lábios,
Era como se o sol do meio-dia

Despontasse em plena meia-noite.
Não me lembro neste instante
De nenhuma das gloriosas palavras
Que ele disse perante os circunstantes.

Sei apenas que, ante aos olhos
De nossos espíritos imortais,
Havia uma imensa epopéia
De luzes e de fulgores, tais quais,

A um faiscar de centelhas
E lampejos de outra dimensão…
Vi descortinarem-se diante de mim,
Em diáfana e constante profusão,
Horizontes de infinita amplitude…
E este mundo que habitamos
Fugia como sombra longínqua,
Diferente de tudo o que imaginamos,

De forma vaga… quase irreal…
Via o universo das coisas espirituais
Como a única realidade, a grande,
A realíssima realidade… ademais,

O que aquele menino disse
Sobre as visões do profeta Isaias
Era o próprio reino de Deus,
De que ele mais tarde falaria,

Reino que está no mundo,
Mas que deste mundo parte não faz…
Reino da verdade e da vida…
Morada da justiça e da paz…

Reino do amor e da graça…
Residência da luz eternal…
Reino da beatitude infinita…
Domicilio do Pai Celestial…

Quando os rabis do templo
Se sentiram envolvidos totalmente
Nessa atmosfera divina,
Terminaram, quase que imediatamente,

Todas aquelas discussões,
Assim como caem os nevoeiros
Ante a incursão carinhosa do sol
Com seus raios amigueiros

A cada manhã de um novo dia.
Aproveitando a oportunidade,
Aqueles homens religiosos,
Com respeito e sensibilidade,

Dirigiram à iluminada criança
As melhores e mais sensatas questões
Que nunca haviam feito a ninguém
Em nenhuma de suas reuniões.

Abandonaram a letra mortífera
E abraçaram o espírito vivificante.
E a criança, com encanto e maestria,
Respondia a todos naquele instante,
Eclipsando toda a sabedoria
De todos os mestres de Israel,
Inclusive dos considerados maiores
Gamaliel, Chammai e Hillel.

E dizia todas aquelas coisas
Com tamanha graça e beleza
E espontânea naturalidade,
Que parecia, com certeza,

A realidade mais evidente
Na Terra e no Plano Espiritual.
Nem parecia reflexionar.
As palavras brotavam, de forma tal,

De seus lábios encarnados
Como a água pura que emana
Das profundezas da mãe terra
Para matar a sede humana.

Desse dia em diante
Disse Eliud com a voz terna,
E dando as suas palavras
Uma inflexão solene e interna

Deixou esse pequeno orbe
De existir para mim.
Era como se esse planeta
Tivesse chegado ao fim.

E quem viu o paraíso que eu vi
Por meio das palavras da criança,
Passa a viver para esse mundo
Com mais dedicação e confiança,

E só tolera essa vida presente
Como uma jornada que se faz
Para esse universo de luz e vida
De fraternidade, de amor e de paz…

Lembro-me, também, Miryam
Quando tu e teu esposo amado
Assomaram a entrada do templo
E chamaram pelo filho adorado

Porque havia três dias
Que andáveis à sua procura,
Cheios de receio e aflição.
Filho lhe disseste naquela altura ,
Por que fizeste isto?
Eis que teu pai e eu, preocupados,
Te procurávamos aflitos
Por todos os lados…

E ele, sereno e calmo,
Como sempre respondeu:
Por que me procuráveis?
Então não sabíeis que eu

Devia estar nas coisas de meu Pai?…
Eu disse Myriam naquela situação
Não atinei com o sentido profundo
Destas palavras ditas na ocasião

Pelo meu querido filho Jesus.
E também, quem as poderia entender?
Exclamou o respeitável Eliud
Como poder compreender

Que um menino de 12 anos
Deva ser mais da humanidade
Do que de sua família?
Mais redentor que filho de verdade?

Ser menos dos seus pais terrenos
E mais do Pai celestial?
Mais vítima de expiação
Que objeto de carinho maternal?…

Aqueles três dias suspirou Myriam
Foram dias de angústia inenarrável.
Sabíamos que o nosso Jesus
Era filho obediente e afável,

Mas ignorávamos por que razões
No-lo teria Deus tirado.
Não éramos dignos dele?…
Do dileto Messias enviado?…

Não lhe compreendíamos
A sua grande missão?…
E não estaria a sua vida em perigo
E sofrendo perseguição?

Não teria o sucessor de Herodes
Naquele instante, infelizmente,
Descoberto a nossa fuga para o Egito
E identificado o suposto pretendente
Ao rico trono da Judéia?…
Eu disse o cego ancião,
Sem atentar a essas perguntas
Feitas por Myriam na ocasião,

Quase que te quis mal
A partir daquele dia.
Filho assim não era certamente
Para uma única família,

Era para o mundo todo.
Só ele podia, com toda razão,
Libertar o nosso povo
Da vergonhosa escravidão.

Só ele podia restabelecer,
Com seu poder de atuação,
O esplendor do reino de Israel,
De nosso pai Davi, do grande Salomão…

Assim pensava eu nesse tempo.
E tu o levaste contigo…
E ele desapareceu dos meus olhos…
E até hoje trago comigo

Essas lembranças imperecíveis…
E só mais tarde pude compreender
A missão que o Divino Messias
Viera aqui na terra desenvolver.

Viera romper as algemas do pecado,
Libertando-nos de toda escravidão
Dos sentimentos inferiores
Que levam o homem à perdição.

Acabei tendo a certeza
De que o Seu reino de amor
Não era deste mundo…
E que o reino de nosso Senhor

Estava dentro de nós mesmos…
Após a narrativa emocionada,
Eliud partiu com sua netinha
Despedindo-se da mãe amada

Do meigo nazareno Jesus.
Pairava no ar tanta paz e harmonia;
Era como se a Terra, naquele dia,
Estivesse envolta em plena luz.


Síntese Biográfica de Jesus em Versos

Autor:Arnaldo de Araújo rocha

Capítulo 1 – Ponto de Vista

Capítulo 2 – Visão de Zacarias

Capítulo 3 – Maria, A Futura Mãe

Capítulo 4 – Maria Visita sua Prima Isabel

Capítulo 5 – João, O Anunciador do Messias

Capítulo 6 – O Difícil Reencontro

Capítulo 7 – O Sonho Revelador

Capítulo 8 – Esclarecimentos Necessários

Capítulo 9 – O Recenseamento

Capítulo 10 – De Nazaré a Belém de Judá

Capítulo 11 – Jerusalém, Atualmente

Capítulo 12 – O Nascimento de Jesus

Capítulo 13 – O Cântico de Simeão

Capítulo 14- Os Magos do Oriente

Capítulo 15 – Elucidações Importantes

Capítulo 16 – A Fuga para o Egito

Capítulo 17 – O Esperado Regresso

Capítulo 18 – A Infância de Jesus

Capítulo 19 – Jesus aos 12 Anos