OS MAGOS DO ORIENTE

O silêncio e a escuridão da noite
Envolvem as extensas planuras
Ao derredor da Caldéia;
E olhando para as alturas,

Vê-se no azul-negro do firmamento
Miríades de astros cintilantes
Iluminando as vastas estepes
Com seus raios coruscantes.

No meio dessas estepes
Se ergue uma construção,
Uma espécie de atalaia de madeira,
E em torno dessa edificação

Agrupam-se numerosas tendas
E barracas de tribos errantes,
Aquecidas durante a noite
Por fogueiras crepitantes.

No alto da torre de vigia,
Vê-se um homem encostado,
No largo peitoril da mesma,
Contemplando o céu estrelado.

A longa túnica branca,
Em sua imaculada cor,
Empresta um quê de venerando
Ao noturno observador.

De quando em quando,
Ergue suas mãos ao firmamento
E os seus lábios parecem murmurar
Discretas preces naquele momento.

Depois de muito sondar
A abóbada celeste encantado,
Toma nas suas mãos um pergaminho
E lê em seus hieróglifos, abismado,

Os escritos ali contidos.
É um dos livros sagrados
Que os hebreus lá deixaram
Quando foram libertados

Do cativeiro babilônico,
Antes de irem na direção
Das terras de Canaã,
Para estabelecer uma nova nação.
Fala de um luzeiro
Que no céu despontará
Como sinal do advento
Que estará a anunciar

A chegada do Messias,
Predito pelos profetas primeiro:
“Uma estrela surgirá de Jacó,
Em Israel aparecerá um luzeiro.”

Só Deus sabe quantas noites
Passou em claro o observador,
Esperando vir dos céus
Qualquer sinal revelador!

Alguns amigos seus
Nutriam a mesma esperança;
Eram pagãos, todos eles,
Mas tinham a mesma confiança

De que o Messias viria
E não seria o Salvador, somente,
Do grande povo israelita
Como de todo o mundo, igualmente.

No meio de suas lucubrações,
Esse homem de nome Baltazar,
Olhando fixo o horizonte,
Vê um fenômeno despontar:

É uma estrela de intenso fulgor.
Ele saúda o sinal esperado,
E ainda na mesma noite,
Muito feliz e emocionado,

Despacha vários mensageiros
Para os amigos comunicar
Sobre a feliz descoberta,
E convidando-os, desde já,

Para juntos procurarem
O sublime enviado do céu
Predito pelos profetas
Da cidade santa de Israel.

No dia conforme foi aprazado,
Os três chefes de tribo se encontraram,
Cercados de suas comitivas,
E a peregrinação iniciaram.
De onde vieram eles?
Diz o evangelista: “Do Oriente,
Talvez da Arábia, da Pérsia 
Não sabemos exatamente!”

Todos de comum acordo
Se põem em peregrinação,
Cheios de convicção e coragem
No cumprimento dessa missão.

Sucedem-se dias e mais dias.
E a caravana segue adiante
No encalço do misterioso luzeiro
Que os guia a uma terra distante.

Esses três chefes de tribos
De magos foram designados
Pelos historiadores sacros
Segundo os registros encontrados.

Mago era uma denominação
De uma casta do Oriente
Ligada à ciência e à religião.
Diz Heródoto, convictamente,

Que existiam seis tribos de magos.
Adoravam o fogo, a terra, a água e o ar,
Os quatro elementos dos quais
A filosofia antiga vivia a afirmar

Que compunham o universo.
Esses magos da antiguidade
Usavam vestimentas talares,
Com a mesma similaridade,

Ou seja, túnicas de cor branca,
Chapéu alto de abas descendentes
Caindo sobre os lados do rosto.
Essas pessoas muito eminentes

Pretendiam ser os mediadores
Entre os homens e as divindades;
Intervinham em todos os sacrifícios;
Eram procurados pelas comunidades

Para interpretarem sonhos e agouros;
E diziam conhecerem, de antemão,
O que aconteceria no futuro
Do homem e de sua civilização.
Os três magos do Evangelho
Sobre os quais vamos falar,
A tradição cristã chamava-os de:
Baltazar, Melchior e Gaspar.

É possível que eles representassem
Os diferentes tipos de nacionalidades
Das raças de Sem, Cam e Jafé,
Com grandes probabilidades.

Na expedição em busca do Messias,
Esses três grandes iniciados
Não levavam nenhuma arma,
Pois se achavam assegurados

Da total proteção espiritual
Que teriam naquela missão.
Aos primeiros albores do dia,
Antes de qualquer outra ação,

Entoavam hinos a Deus,
Fitando a estrela com emoção,
A qual parecia adivinhar-lhes
Os anseios do coração.

Ao se aproximarem de Jerusalém,
Uma surpresa desagradável ocorreu:
A estrela que até então os guiara
De súbito, simplesmente, desapareceu.

Que fazer nessa situação?
Principiaram a tomar informação
Acerca do rei dos judeus,
Recém-nascido naquela nação.

Mas os que foram interpelados
Não sabiam desse acontecimento
E orientaram a estranha caravana
Que fosse, naquele momento,

Procurar o governador da Judéia.
Os magos seguiram a orientação
E foram ao palácio de Herodes, o Grande,
E solicitaram uma audição.

Herodes, ouvindo sobre o nascimento
Do rei dos Judeus em seu estado,
Ficou naquele instante
Entre surpreso e preocupado,
Pois era um homem severo,
Com todo e qualquer rival;
E quem caísse em suas mãos
Sucumbia pelo veneno ou pelo punhal.

Ele já tinha assassinado,
Com requintes de crueza,
Mulheres, filhos, seu sogro
E várias pessoas da nobreza.

Se de terras longínquas
Vinham alguns soberanos, de fato,
À procura de um príncipe judaico,
Certamente, não podia esse boato

Deixar de ter fundamento…
Convocou, então, secretamente,
Os entendidos nas Escrituras Sagradas
E perguntou-lhes, diretamente,

Onde deveria nascer
O rei dos judeus, o tal Messias;
E eles lhes responderam
Que, segundo as profecias

E especialmente a de Miquéias,
Em Belém ele nasceria, certamente.
Com efeito, assim escrevera,
Há sete séculos, o inspirado vidente.

Herodes tinha a preocupação
Que o Messias dessa predição
Tivesse o poder de restabelecer
O reino de Davi e Salomão,

Derrotando os seus adversários
Na condição de político dominador.
E ele, Herodes, o Grande?
Do jeito que ia o andor,

Ver-se-ia dessa forma eclipsado
Ou até mesmo seria eliminado
Do número dos vivos na Terra.
Por isso decidiu, enraivado,

Assassinar o quanto antes
Esse rival desconhecido,
Que viesse tomar-lhe o reino
Depois que tivesse crescido.
Muito perverso e hipócrita,
Mandou chamar, clandestinamente,
Para reunirem-se consigo,
Os três reis magos do Oriente

E disse-lhes cordialmente:
 Ide e procurai com afã a criança,
E quando a houverdes encontrado,
Mandai-me, logo, um comunicado,

Para que eu possa, também,
Prestar-lhe a minha homenagem.
Os reis, sem de nada suspeitarem,
Partiram em uma nova viagem,

Orientando seus passos para o sul
Em demanda da profética Belém
Que ficava a doze quilômetros
Da cidade santa de Jerusalém.

Mal saíram daquela cidade,
Apareceu no céu, novamente,
A magnífica estrela guia,
Como se por eles, unicamente,

Ela houvesse esperado.
Sentiram uma grande consolação,
Pois aquela luz lhes dizia
Que estavam na verdadeira direção.

Lentamente diante deles,
A estrela foi se deslocando
E, quando chegou a Belém,
Aos poucos ela foi parando

Até ficar imóvel sobre o local
Onde se encontrava a criança
Por quem os magos buscavam
Com a mais absoluta confiança.

Entraram e encontraram a Jesus,
E se prostraram, de forma tal,
Tocando o chão com a testa,
À moda do costume Oriental,

Homenageando dessa maneira
O jovem príncipe esperado.
Em seguida, os três reis magos,
Conforme haviam combinado,
Abriram os seus cofres
E ofereceram à linda criança
Ouro, incenso e mirra,
Como uma espécie de lembrança.

Na noite que precedeu
A partida dessas autoridades,
Apareceu-lhes em sonhos
Um anjo de extrema bondade

Que os advertiu, prontamente,
Para que não voltassem por Jerusalém
Porque Herodes maquinava a morte
Do menino que viera do além.

Levantaram-se e, antes de clarear o dia,
Regressaram para suas nações
Por outros caminhos diferentes
Sem suscitarem mais atenções.

A descrição feita acima
Corresponde perfeitamente
À da tradição popular.
Mas, existem, certamente,
Mais outras possibilidades
Dignas de nossa avaliação.
A Ciência, por seu lado,
Fala de uma provável conjunção

Ocorrida com certos planetas
Que pode ter produzido um clarão,
Confundido-se com a tal estrela
Naquela determinada situação.

É provável que não tenha se tratado
De nenhuma estrela objetiva,
Mas que tenha sido, certamente,
Uma estrela subjetiva

A guiar os três reis magos
Por uma espécie de intuição.
Isto, também, explica o porquê
Que nessa mesma ocasião

A estrela guia desapareceu
Quando em Jerusalém eles entraram
E, somente, voltou a reaparecer
Quando dessa cidade se retiraram.


Capítulo 1 – Ponto de Vista
Autor:Arnaldo de Araújo rocha
Biografia de Jesus em Versos

Capítulo 2 – Visão de Zacarias

Capítulo 3 – Maria, A Futura Mãe

Capítulo 4 – Maria Visita sua Prima Isabel

Capítulo 5 – João, O Anunciador do Messias

Capítulo 6 – O Difícil Reencontro

Capítulo 7 – O Sonho Revelador

Capítulo 8 – Esclarecimentos Necessários

Capítulo 9 – O Recenseamento

Capítulo 10 – De Nazaré a Belém de Judá

Capítulo 11 – Jerusalém, Atualmente

Capítulo 12 – O Nascimento de Jesus

Capítulo 13 – O Cântico de Simeão

Capítulo 14- Os Magos do Oriente